Austrália: Criando filhos longe da família

Uma das perguntas que mais recebo de famílias com filhos é: como é criar sua filha longe da família?

A resposta para essa pergunta não é simples. Quando tomamos a decisão de mudar de país, sabíamos que muita coisa estava em jogo. Sabíamos que ganhariamos muita coisa, mas perderíamos muitas outras também. A vida é feita de escolhas, afinal.

Tudo começou com a gravidez (óbvio). Descobri que estava grávida ás 3 horas da tarde na Austrália, 4 horas da manhã no Brasil, e eu queria muito contar para minha irmã, mas ela estava dormindo. Ainda bem que o tempo passou rápido aquele dia e logo consegui contar para ela.

Durante a gravidez, cuidar do enxoval do bebê, ir nas consultas e em cada um dos ultrasons… foi uma delícia curtir tudo, mas abençoada tecnologia que encurta as distâncias. Agora foi quando minha filha nasceu que senti mesmo falta da família. Ela nasceu ás 3 da tarde, 4 da manhã no Brasil. Entrei em trabalho de parto ás 9am, então a maioria dos familiares acordou com foto dela no Whatsaap. Tudo na vida tem seu lado bom e ruim, acredito que o bom deve prevalecer.

Quem tem filho sabe como os primeiros três meses são, digamos assim, intensos. Foi nossa escolha não ter ninguém da família visitando nesse período por razões pessoais. Minha filha nasceu no outono e logo mais veio o inverno. Dizem que precisa-se de uma vila para criar uma criança. Aqui foram quatro mãos, muito amor e apoio das pessoas que fazem parte da nossa vida aqui e de órgãos do governo de apoio a famílias.

Seria ótimo ter tido família por perto, claro, mas foi ótimo também fazer as coisas do nosso jeito, sem opinião e os mil palpites (que vinham pela internet, mas pelo menos conseguimos filtrar o que chega no Brasil). Tive muitos momentos de solidão, mas muitas tardes sozinha com minha pequena, sentindo seu cheiro e aprendendo a conhecer a personalidade dela. Não ter ninguém perto também fez meus sentidos ficarem muito mais aguçados e construi uma sintonia linda com ela. E fez eu e meu marido nos sentirmos mais companheiros que nunca. Tudo tem seu lado bom e ruim.

Conforme ela vai acrescendo, a distância aumenta. Cada coisa que ela aprende são mil vídeos feitos e enviados por Whatsapp. Toda semana falamos com a família e fiz um quadro de fotos para ela saber quem é quem. Assim, ela reconhece a família não somente pela internet. Tem vezes que ela faz algo muito legal (como essa semana que ela aprendeu a bater palma), até minha irmã ver as fotos é de madrugada aqui.

Lendo tudo isso, você pensa: puxa, é bem difícil então. Claro que é, nunca disse que não. Porém, quando se vê a longo prazo (e até curto, se for pensar), a qualidade de vida e opções de futuro que estou oferecendo para minha filha, valem todo esse sacrifício. Tem que valer. Em todos os meus posts, eu tento ser o mais realista possível, mostrando aos leitores a vida como ela é. Morar fora não é um paraíso. Muitos sacrifícios são feitos e viver longe da família é um deles.

Uma das coisas que mais difere da vida no Brasil com os filhos é que eu tenho a escolha de trabalhar meio período e passar mais tempo com ela, algo que seria praticamente impossivel no Brasil. Por outro lado, não temos ajuda na casa. A responsabilidade da faxina e de cuidar dela é 100% nossa – babas e faxneiras sao extremamente caras por aqui. Isso é bom e ruim. Claro que é ruim, pois quem gosta de fazer faxina e perder tempo limpando a casa? É bom porque valorizamos muito mais nosso tempo, damos prioridades, nos ajudamos e participamos de cada momento da vida da minha filha. Tudo tem seu lado bom e seu lado ruim.

Minha irmã não conhece minha filha, e minha filha não conhece os avós. Eles não estavam aqui para pega-la no colo e ver ela engatinhar, mas eu trabalho meio período e passo dois dias da semana com minha filha. Eles não estão presentes, mas eu estou muito mais. Meu marido sai as 5pm do trabalho e chega em, no máximo, meia hora. Ele dá janta, esta em casa para banho e cama. O horário de dormir dela é 6:30. Quando no Brasil isso aconteceria? Qualquer uma das coisas que descrevi?

Nos sentimos muito mais seguros aqui em muitos sentidos: trabalhar em uma áerea diferente da sua formacao é bacana e reconhecido como um trabalho qualquer. Perder o emprego no Brasil é um drama, e se você resolve mudar de área então? Eu passei por um baita perrengue quando sai do Direito para a área de sustentabilidade. Aqui você mantém boa parte do seu padrão de vida se perder o emprego e precisar trabalhar temporariamente como um garçom ou cortando madeira (conhecemos gente que fez isto, por exemplo). E claro, a segurança física, de poder sair para caminhar com ela sem nenhum medo. Até para entrar e sair do carro, o que demora uma vida com ela, não sinto nenhum medo.

Outra coisa é que aqui não temos tanta obrigação familiar, de visitar as pessoas aos finais de semana o que nos deixa muito mais livres e nos dá possibilidade de fazermos programas diferentes com ela, como ir para praia ou brincar no rio.

Da mesma forma que não tem ninguém para nos ajudar, não tem ninguém para dar palpite e questionar nossas escolhas na educação e cuidado dela (como por exemplo, usar fralda de pano ou ter um quarto Montessori). Não ter ajuda, significa sermos muito mais ativos na vida dela. Não estou questionando ou julgando as escolhas dos outros, pelo amor de Deus. Essas foram e são as nossas escolhas e colhemos diariamente as consequências dela.

Acredito que na hora de escolher, tem que pesar mais o lado positivo. Para nós nem compara. Eu não imagino e admiro muito quem cria filho no Brasil. Quanta dificuldade, insegurança. Ter a família perto é, sem dúvida, uma delicia. Adoraria ter todas as tias mimando minha filha, e minha irmã fazendo ela gargalhar, ela dando os braços para meus sobrinhos, brincando com os avós. Não ter a família perto é uma falta, uma pena. Porém na nossa lista, o lado positivo ainda ganha. São escolhas e como toda escolha, tem uma renúncia. Ainda bem que a tecnologia ajuda a diminuir as distâncias e essa, como tudo na vida tem seu lado bom e seu lado ruim.

 

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15 comentários sobre “Austrália: Criando filhos longe da família

  1. Olá, Aline! Gosto demais de seus posts, leio cada um atentamente, já tinha mandado mensagem para você anteriormente, mas na ocasião estava esperando o meu sonho se realizar, torcendo muito que tudo desse certo, agora já está se concretizando, nosso visto foi aprovado e vou com meu marido dia 2/3 para Perth! Como estou feliz! Um abraço para você.

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    1. Amanda, querida, obrigada pelo carinho. Fico muito feliz em ajudar. Eeeeeeee que notícia maravilhosa. 10 dias e vcs estão aqui….. me manda uma mensagem quando chegar para marcarmos um café. Aproveita bastante o Brasil e tenta descansar mesmo na loucura que deve estar sendo mudar para cá.
      Abraços e boa viagem

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  2. Oi Aline,
    To no mesmo barco que voce. Minha filha ja vai fazer 3 anos mas eu tb tive ela aqui sozinha, com meu marido, do outro lado do mundo. Nos ja fomos 2 vezes pro Brasil e ela amou estar com a familia, o qur me doi muito pois ela sempre fala das priminhas e dos vovos. Eu nao imagino voltar pro Brasil e cria-la la com esse medo ate de sair na rua. Como voce, eu tambem acredito que aqui tenha mais pontos positivos, principalmente pro futuro dela…é um super sacrifio para todos nos!

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    1. Eu penso igual, Julia. Pelo menos estamos dando opção para ela de escolha.
      Ela veio ao mundo com quase três cidadanias (somos PR ainda).
      As saudades da família doem, e acho que tem que valer MUITO a pena. Por enquanto, vale. Se num futuro deixar de valer, repensamos as escolhas.

      Obrigada por ler e acompanhar o blog 🙂

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  3. Adorei seu post, estamos preparando tudo por aqui para ir morar em Melbourne, realmente ter a família por perto é uma delícia, mas a falta de segurança e educação nos fez repensar e dar ao nosso pequeno pelo menos a oportunidade de crescer com mais dignidade. Se tudo der certo chegamos em julho 😘😘😘

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    1. Tatiana, obrigada por acompanhar o blog :).
      É um dilema constante sim. Eu sinto falta da família mas acredito que a oportunidade de vida que estamos dando para ela é única. A qualidade que temos aqui, em todos os aspectos, vale a distância. Mas não é fácil não.
      Boa sorte com a mudança e qualquer dúvida, é só mandar :-).
      Abraços

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  4. Olá! Concordo e muito com seu post, tudo tem seu lado bom e ruim e, no caso, quanto a criação de um filho em um país como a Austrália e sem dúvida, fazer valer todos os sacrifícios e é assim que eu e meu marido pensamos e esperamos realizar. Ah! Estamos chegando dia 4 de abril em Brisbane e com fé em Deus seremos abençoados com uma nova vida dentro dos valores que sempre acreditamos! Abraço e fique com Deus!

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    1. Que máximo, Priscila. Da um mega frio a barriga qdo esta chegando, eu lembro direitinho.
      Venham com Deus e espero que consigam realizar tudo que almejam. Manda notícias qdo estiver aqui e qualquer duvida,
      Pode mandar.
      Obrigada por acompanhar o blog ;-).
      Abraços
      Aline

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  5. Olá, Aline

    Sou médica, e ainda não tenho filhos, mas estou me preparando para tê-los e criá-los aqui mesmo no Brasil.
    Consegui mudar de um apartamento de dois dormitórios, para um de quatro em 4 anos de casamento. Faço pós graduação na USP, tenho uma faxineira duas vezes por semana, e consigo trabalhar somente três dias por semana e por meio período, além de ter creche gratuita e de boa qualidade no hospital. Além disso, vou trabalhar de transporte público, e chego no hospital em 20 minutos.
    Meu marido também é médico e tem um day off durante a semana. Já tive proposta de emprego na Europa, trabalhando na minha área, mas recusei; já que tenho uma qualidade de vida ótima, mesmo vivendo em São Paulo e ainda tenho minha família próximo.
    Realmente fui muito abençoada com tudo isso, além de agradecida e certeza de que fiz boas escolhas.
    Admiro-te pela coragem.

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    1. Ola Danielle, obrigada pelo comentário. Parabéns por todas as suas conquistas, tenho certeza que você batalhou muito para estar colhendo os frutos agora.
      A vida é feita disso mesmo, escolhas. Eu mudei porque não concordava com mil coisas no brasil, sofri até ameaça de morte por estar fazendo um trabalho de formiguinha ensinando professores a ensinar crianças sobre sustentabilidade. Tinha uma vida bem legal, mas não era feliz. Para mim, por exemplo, qualidade de vida é criar minha filha solta, brincar no parque sem medo de ser assaltada, ter tempo para minha família. Eu tinha uma vida ok no brasil mas não tinha isso. E aqui tenho.
      Então o que importa é o que funciona para você. Se você está feliz com a vida que tem aí, é que vale.
      Na minha opinião, não existe certo ou errado, mas o que funciona para você.
      Parabéns pelas conquistas, pelas escolhas.
      Obrigada por ler e comentar.
      E boa sorte com o futuro baby ;-).
      Abraços

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  6. Oi Aline, tudo bem? Meu marido recebeu uma proposta de trabalho em Perth e estamos muito propensos a mudar. Atualmente moramos em São Paulo e temos um filho de 2 anos e 8 meses.
    Gostaria de informações sobre como funcionam as escolas para crianças nessa idade e se você tiver alguma experiência para compartilhar sobre a adaptação de crianças brasileiras que se mudaram tão pequenas, Estou muito apreensiva em relação a isso.
    Muito obrigada

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