Um dia em Reggio Emilia na Itália

Esse é um post um pouco diferente dos que eu publico por aqui. Pensei se deveria ou não escrevê-lo, mas decidi que sim por se tratar de um assunto que sou apaixonada. É mais um pedaço de mim que divido com meus queridos leitores, uma parte bem pessoal.

Desde que comecei a estudar Educação Infantil, em 2013, fui apresentada a diversas filosofias e filósofos: Piaget, Montessori, Steiner, Reggio entre eles. O último me chamou mais atenção até porque meu primeiro emprego foi em uma escolinha Reggio.

Antes de estudar sobre Educação Infantil, eu nunca tinha ouvido falar em Reggio. Conhecia o método Montessori e Steiner por ter alguns amigos que estudaram na Waldorf. Quando comecei a trabalhar e conhecer mais sobre Reggio, me apaixonei.

Quando ainda em 2013 fui contratada para trabalhar na escola que ainda trabalho hoje, uma das primeiras perguntas que fiz na entrevista foi sobre a filosofia, inspiração. Eles estsvam abrindo uma nova escolinha e a inspiração era Reggio. Foi um dos grandes fatores que me fizeram recusar uma oferta na outra escola para abrir meu trabalho e implementar do zero tudo que havia aprendido até o momento.

Reggio Emília é uma inspiração. Não é um método, como Montessori. É uma cidade na Toscana, Itália. Tudo começou no pós-guerra. A cidade estava destruída e deveria ser reconstruída do zero. A primeira coisa que os habitantes pensaram em reconstruir, foram as escolas. Loris Malaguzzi é o grande idealizador. Para saber mais sobre Reggio, clique aqui.

O princípio que mais me encanta é a visão da criança. Fui educada a ver a criança como uma página em branco, que não sabe de nada e precisa de ajuda para aprender e se descobrir nesse mundo. Em Reggio, aprendi a ver a criança como competente e dona do seu aprendizado. É um conceito bem diferente e vai de encontro com o que acredito. E a forma como vemos a criança faz todo aprendizado ser em torno dela. É um conceito tão simples e tão inspirador. Ao invés de você, pai ou educador, decidir os brinquedos ou as atividades que a criança vai brincar, você organiza o ambiente (que deve sempre estar organizado e convidativo para brincar) e deixa a criança livre para fazer suas escolhas.

Isso tudo vai tão de encontro com o que cresci ouvindo. A criança não é alguém que precisa ser distraída. Quantas vezes ouço pais dizendo “não sei mais o que fazer para entreter meu filho”. E aqui, lembro de uma palestra que ouvi da Carla Rinaldi, Diretora de Reggio Internacional hoje, dizendo “você é pai/mãe ou educadora, não palhaço para entreter a criança. Seu papel é ouvir e conhecer a criança e responder ao seu interesse com o respeito que ela merece e tem direito”. Forte, não?

Escola Diana
Espelho no banheiro para adultos e para crianças

Os professores são pesquisadores. O ambiente é o terceiro educador. A construção dos relacionamentos são o centro do currículo. Proggestazione, o planejamento pedagógico. O Atelier, um laboratório dentro das escolas. Todos esses são princípios que fazem parte de Reggio.

Enfim, após 4 anos trabalhando com Reggio, inúmeros livros e vídeos e conferências, e visita a escolas diferentes para inspirar meu trabalho, marcamos uma viagem de férias para Itália. Na mesma hora decidi que passaria pela cidade Reggio Emília. Estava muito empolgada em finalmente, visitar os lugares que tantas vezes vi em vídeos e entrei nos websites.

Fui em Julho, férias escolares, então todas as escolas e os Nidos (ou ninhos, como são chamadas as escolas infantis) estavam fechados para férias. Fui direto no Centro Internacional de pesquisa Loris Malaguzzi que é o um local de aprendizado e de encontro das escolas da região. Lá estão localizadas as exposições como a famosa “100 Languages of Children” e a mais recente “Exploração de luz”.

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Exposição exploração da luz
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Exposição “O Direito das crianças”

Lá também é o REMIDA local. Remida é uma associação na qual há a distribuição de materiais reciclados para sócios. Você paga uma anuidade individual ou a escola e pode ir quantas vezes quiser. O nome já é fantástico. Remida vem de Re que é rei em italiano Midas, aquele que transformava tudo em ouro. Ou seja, você transforma qualquer material em algo novo e especial.

O Centro em si é maravilhoso. Todo iluminado, e logo na entrada tem uma sessão de “loose parts” ou partes soltas. Minha filha já amou ali. Ficou um tempão brincando com os objetos reciclados, pedaços de cano, de plástico, de papel colorido, uma espécie de lego ou quebra cabeça com materiais reciclados. Materiais que são “open ended”, sem fim específico e dão asas para imaginação. Não existe instrução ou certo ou errado. Olha o respeito a criança e liberdade de novo.

Minha filha brincando no setor de loose parts em Reggio

Um café, claro, afinal comer é uma grande parte da cultura italiana. A primeira exposição que vi foi sobre direitos das crianças. Na parede de entrada, a palavra “bem-vindo” em diversas línguas nos receberam como que em um abraço. Esse projeto sobre os direitos das crianças foi iniciado em uma discussão com as crianças, e uma criança de 4 anos questionou os direitos. O projeto durou um ano. Professores e alunos conversaram sobre o tema e cada uma deu sua opinião e as frases estão escritas em italianos e traduzidas para o inglês nas paredes.

Incrível para observar como as crianças pensam e como são valorizadas e vistas como capazes. Mais uma documentação sobre ondas e marés, uma poltrona feita pelas crianças, e uma sessão inteira dedicada a exposição e exploração da luz e cores.

No andar de cima, mais projetos: sobre raízes uma exploração completa, profunda e detalhada sobre plantas e folhas. Exploração das cores, um Ateliê lindíssimo, e demonstrações de como todo aprendizado é documentado, como os projetos se iniciam e passo a passo o desenvolvimento das crianças. Ufa!

No mesmo andar de cima, tem um restaurante orgânico, lindíssimo. Do outro lado do hall, mais exposições mostrando o trabalho dos alunos de diversas idades. Explorações sobre as árvores, sobre preto e branco, sobre a cidade.

O relacionamento da filosofia com a cidade e a comunidade é outra coisa incrível e isso tem a  ver com a história de Reggio que é contada em uma das exposições e já comentei acima. E ai, para fechar com chave de ouro mais uma demonstração do trabalho das crianças, dessa vez, esculturas de argila demonstrando as pessoas da cidade. Para fazer as esculturas, as crianças de 5 anos foram diversos dias na praça da cidade e desenharam e tiraram fotos das pessoas. Depois de volta à escola, alguns pintaram e vários quiseram representar as pessoas em argila e o resultado é esse trabalho maravilhoso.

Exposição sobre os moradores da cidade feitos de argila
Detalhes

A outra grande surpresa foi encontrar Carla Rinaldi, grande nome e presidente de Reggio hoje e ela me reconhecer. Tiramos uma foto e de lá seguimos para estação de trem para visitar a cidade.

Já na estação, mais documentação e trabalho das crianças sobre meio de transporte. A cidade em si, eu achei bem decadente. Estava vindo de Verona e indo para Florença, as duas abarrotadas de turistas no mês mais cheio do ano e Reggio estava as moscas. Como eram férias, não consegui visitar as escolas, mas fui até a escola mais antiga, Diana, e dei uma espiada nela. Foi surreal de bom ver ao vivo o que vi tantas vezes em fotos. E a cidade, a praça, as colunas, os parques. Como tudo em Reggio esta conectado, não tem como visitar o Centro Internacional, sem visitar a cidade.

Sai de lá com o coração feliz, emocionada, mais apaixonada ainda pela filosofia e cheia de livros para continuar estudando a respeito.

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