Austrália: Trabalho voluntário no Zôo

Minha vida inteira eu fiz trabalho voluntário. Desde criança. Minha mãe dizia que voluntariado é uma forma de agradecer tudo que temos na vida. Cresci assim. Aqui na Austrália não poderia ser diferente.

Descobri que poderia ser voluntária no Zoológico muito por acaso. Estávamos passeando no Zoo para ver os animais australianos, e vi que tinha um departamento de Educação Ambiental. Tirei foto do telefone e assim que cheguei em casa, entrei no site. E lá estava o programa de “Docent“, como são chamados os voluntários. Preenchi a ficha, mandei e fiquei esperando a resposta. Alguns meses depois, chegou em casa a cartinha dizendo que eu estava sendo selecionada para uma entrevista. Sim, entrevista! Existe processo seletivo para ser voluntário. Na entrevista reforçaram o papel do Docent, em que consistia a função e a importância do comprometimento do voluntário para exercê-la .

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De uniforme com minhas colegas

Docent é o nome dado aos voluntários no Zoológico. É uma palavre que vem do latim, e significa ensinar. A função do Docent é passar informações sobre os animais e o próprio zoológico, ajudar os visitantes do Zôo a terem um dia melhor e auxiliar os keepers(cuidadores dos animais), quando solicitado. O trabalho é com as pessoas, não com os animais.

O resultado da entrevista veio quase dois meses depois, dizendo que eu havia sido selecionada para o treinamento de 10 semanas, aos sábados, no inverno de Perth. Pois então, todos os sábados, de julho e agosto, eu acordava às 6h, pegava dois ônibus e ia até o Zôo participar do treinamento. Depois dessas 10 semanas, entramos em um período de “Probation” (período de experiência) que durou 3 meses e após isso, ai sim, aconteceu a formatura. O treinamento foi a parte mais legal de todo trabalho. Cada semana um tema diferente, uma área diferente, um grupo de animais ou tipo de planta e a história de cada um deles.

Na formatura, vestimos nossos uniformes e ganhamos um crachá com nome. O comprometimento com o trabalho é grande. São dois dias por mês, das 8h30 às 15h. Frio e chuva do inverno ou os 45ºC do verão, lá estamos nós. Por conta desse comprometimento, a maioria dos Docents são aposentados.

Realizei meu trabalho com muito amor e dedicação por três anos, um dos quais, meu marido também se juntou à associação dos Docents. Adorei cada minuto do meu trabalho e sou muito feliz e sortuda por ter feito parte deste time.

Perth Zoo

Os Zoológicos na Austrália fazem parte de fundações internacionais. Isso implica em uma série de regras. Numa delas, os animais que eles têm para exibição são controlados, assim como sua reprodução. O Perth Zoo é do governo, custa um dinherão mantê-lo.

O Zôo de Perth é dividido em áreas: Savana, Floresta da Ásia, Animais Noturnos e Outback Australiano, onde os animais correspondentes a cada bioma se encontram. É bem fácil se movimentar lá dentro, pois ele não é tão grande quanto os outros Zôos da Austrália. Há ilhas com os macacos de Madagáscar, animais sul americanos (contando com um casal de mico-leão-dourado que vivenciaram caso de violência doméstica: o macho, Pablo, matou a fêmea Pabiola – falei várias vezes que o correto era Fábiola. Cade a Maria da Penha?). A ideia é fazer cada enclosure (espaço) como eles chamam, ser o mais parecido possível com o habitat natural. Por essa razão, na savana só há plantas africanas. Por isso que os leões ficam no alto e de lá conseguem enxergar todos os outros animais. O mesmo ocorre com os orangotangos que, do seu canto, conseguem ver toda floresta. Se você quiser passar a mão em cangurus, ou abraçar um coala, não será neste Zoológico que você terá oportunidade, mas em outros parques de conservação, como o Caversham.

Os animais têm a comida escondida em seu espaço para manterem a caça, eles não são tratados como de estimação, mas respeitados pela sua natureza. Toda equipe envolvida tem um imenso comprometimento com a preservação das espécies. Em cada espaço que você passa, há informações sobre os animais e como ajudar a preservá-los, e claro, Docents em tudo que é canto para ajudar os visitantes a conhecer mais cada espécie. Por exemplo, o Zoológico compra terras em Queensland para ajudar na preservação dos coalas. O hospital veterinário é referência: você pode ligar ou levar qualquer animal nativo debilitado para receber os devidos cuidados, e depois serem soltos na natureza. Mas os dois programas que mais admiro são os do Numbat e do Orangotango.

Numbat é um animal australiano que parece um esquilo e acreditavam que estava extinto, até que um biólogo achou um ninho e capturou um macho e uma fêmea. Hoje, 10 anos após, o Perth Zoo, que reproduz em cativeiro e solta em seu habitat natural, já soltou mais de mil espécies, ajudando a repovoamento da região que eles são endêmicos e balanceando todo ecossistema.

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Um dos trabalhos mais legais: preparando cupim para os numbats comerem

Com o orangotango acontece algo parecido. Há um grande problema de desmatamento na Indonésia e Malásia. O Perth Zoo, em conjunto com associações locais, treinam o orangotango para que possam viver na natureza; 4 animais já foram soltos. Um deles, uma fêmea, já construiu a sua família. Programas como esse me deixam orgulhosa de ter trabalhado lá.

Uma das coisas que as pessoas me perguntam muito é: poxa, mas você trabalha com Meio Ambiente, como pode ter feito trabalho voluntário para um Zoológico? Eu costumo tentar pesquisar e conhecer mais as coisas antes de criticar e ser contra. O que aprendi nesse tempo no Zôo é que eu continuo não concordando, mas eu entendo porque eles existem: a razão somos nós, humanos. Alguns animais têm habitat natural para voltar, mas outros não, como por exemplo, o Tigre da Indonésia, que sofre gravemente com desmatamento. O que nos resta é lutar por um mundo que não precise mais de Zoológicos para proteger os animais. Mas enquanto este dia não chega…

*Publicado originalmente no BPM

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