Austrália: Trabalhar em outras áreas

Trabalho é um dos tópicos que mais nos aflige quando decidimos mudar de país, e campeão em perguntas feitas pelos leitores do Brasileiras pelo Mundo, onde este post foi originalmente publicado.

Assim que cheguei aqui sabia que até arrumar emprego na minha área teria que trabalhar em outras áreas. Garçonete, recepcionista, vendedora. Lembra  quando nos formamos na faculdade e estamos iniciando a carreira, correndo atrás de estágio, networking? Não importa se você tem 10 anos de carreira, aqui você está começando do zero. Precisa conhecer o mercado, as pessoas, a cultura das empresas, e as próprias empresas. Até reaprender a fazer CV você precisa. Tudo isso leva tempo.

Nesse post abordarei trabalhar em outras áreas, especialmente “hospitality” que foi minha experiência, e num próximo trabalho na área.

O emprego que poderá arrumar depende muito de seu nível de inglês. Se o seu inglês é básico, consegue arrumar empego de cleanner, dishwasher (chamado kitchen hand), lavador de carro, estoquista, pois com esses empregos o contato com cliente é mínimo então o nível de inglês não faz tanta diferença. Se é um pouco melhor: garçom, caixa, vendedor.

Como já havia comentado nos outros posts, aqui na Austrália tudo é por semana. Se ganha por semana e se paga por semana ou no máximo quinzenal. A carga horária irá depender de sua disponibilidade (em geral, relacionada a quantas horas o seu visto te permite trabalhar) e normalmente do quanto você espera ganhar. Se trabalha mais, ganha mais. Legalmente o empregador tem que dar meia hora de descanso a cada 6 horas de trabalho.

A média do salário aqui é Perth é $23 / hora. A maioria dos empregos nas áreas citadas acima são casuais, ou seja, você trabalha, você ganha. Não tem direitos de empregado fixo. Mesmo pagando as contas o trabalho é muito puxado. É trabalho físico, horas e horas de pé. Quem lava louça horas e horas com a mão na água. É tudo industrial, são aquelas lavadoras imensas, mas tem panelas e panelas para lavar, pratos, talheres horas e horas por dia. Não é fácil, mas paga bem e compensa financeiramente.

E o que eu mais amo aqui na Australia: não importa qual é a sua profissão, você será respeitado. Não existe a segregação e preconceito que tem no Brasil. Você pode tranquilamente falar que é garçom e não rola nehum preconceito, pelo contrário. Você é visto como hard worker, flexível e empenhado. Quando meu marido estava participando do processo seletivo para o trabalho na área dele, teve que falar em uma das entrevistas que ele tinha que sair em horário 5pm porque entrava no trabalho de garçom as 6pm. Eles adoraram a atitude dele.

Para arrumar sub-emprego você pode procurar no site seek, no Gumtree, ir pessoalmente nos lugares e entregar seu CV ou ainda contar com um grupo de brasileiros no facebook chamado (wait for it): “brasileiros em Perth”. Quem trabalha em bares, cafés, casas, cleaning companies, restaurantes e precisa de mais gente, anuncia ali. Uma forma de nos ajudarmos.

Uma outra informação super importante: aqui na Austrália, para tudo precisa-se de um certificado. Tudo. Para quem vai trabalhar em restaurantes a noite e precisa servir alcool, é obrigatório fazer o “RSA – responsive service of alcohol”. Você pode fazer online ou pessoalmente e custa em média $40-$60. Existem diversas escolas que oferecem essse curso. Assim, quando você for entregar seu CV já tem anexo o certificado do RSA e ganha tempo.

Outra coisa que você vai precisar fazer é ter o seu TFN: Tax Federal Number. É obrigatório e o número é exigido na hora de te contratar.

Para quem não tem experiência, pratica carregar três pratos que é diferença. Eu vi um monte de vídeo no youtube. Antes de fecharem com você, os lugares te chamam para fazer um “trial”, teste. Você trabalha algumas horas, eles veem como você se sai e te contratam. Te dão uns papéis para assinar e ai você estará no “roster”, turnos. No café eles colocavam na parede toda sexta-feira.

Além de trabalhar em restaurantes e cafés também existem os festivais de verão e ai você pode trabalhar como bar runner (abridor de latinhas), caixa e stocker (fica repondo as bebidas). E ai, você pode, como eu trabalhar em festival abrindo latinhas em um feriado nacional, assistir ao show do Red Hot Chilli Peppers e The Killers e ainda ganhar $38/h. Para saber quais as empresas que fazem os shows é necessário garimpar, mas vale a pena. A desvantagem é que é só no verão.

As pessoas me perguntam se vale mentir um pouco e colocar umas experiências no CV. Não posso dizer sim ou não, mas posso dizer que sem nada, nenhuma experiência pode ser um pouco mais difícil conseguir trabalho. Ai fica com cada um. Mas nunca minta sobre referências, porque eles ligam mesmo. Se você acabou de chegar e só tem conhecidos, passa referências pessoais e explica na entrevista.

Minha experiência

Trabalhei em um café por 10 meses assim que cheguei. Eu adorei meu trabalho, até porque amo café e o lugar é um dos melhores em Perth e tem os melhores cafés do mundo, mas é muito cansativo. Trabalhava 10 horas por dia de pé, de segunda a sexta. No começo chegava em casa chorando de dor no corpo até me acostumar. No começo recebia menos turnos e conforme fui ficando recebia mais horários. Trabalhava muito porque queria ganhar mais dinheiro, mas tinha gente que só trabalhava de segunda e quarta, por exemplo. É bem flexível.

Eu era a mais velha do staff. Trabalhava com meninas de 18 anos, o que fez a experiência ser muito interessante e me fez conhecer os jovens australianos (que só querem ficar bebâdos no final de semana. Mas vou explorar isso mais para frente).

No verão as ofertas de emprego aumentam, tem bares e eventos que só acontecem nessa época, mas quem procura emprego no verão disputa com os estudantes de férias da universidade ou cursos técnicos. Sempre acho bacana ver nos sites de emprego como anda a demanda por trabalho.

Com esse espírito pró ativo que tenho, cheguei no café querendo arrumar estoque, melhorar vendas, até o dia que meu gerente, as 6am, eu cheguei mais cedo para contar estoque, não tinha ninguém no café ainda (cliente) e eu conversando com a supervisora olha para mim e gritando diz: “o que você está fazendo aqui, deveria estar no caixa. Não esqueça que eu te contratei para ser uma simples garçonete”. Chorei de raiva aquele dia, mas agradeci. Ele estava certo, eu e não fui contratada para chegar em casa e fazer planilha, mas para atender as pessoas, servir café e limpar as mesas. Libertador.

Foi uma experiência muito bacana e o melhor de tudo: pagou as contas. Se eu voltasse a trabalhar como garçonete hoje, levaria mais de boa o trabalho. Faria direito o que fui contratada para fazer e me estressaria menos. Foi uma experiência muito bacana, e quando me perguntam se tem como se manter aqui até arrumar o, tão sonhado, emprego na área…. Acredito que sim. E fico muito tranquila, pois se um dia perder meu emprego, sempre posso voltar a trabalhar como garçonete que pagar as contas, eu consigo.

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3 comentários sobre “Austrália: Trabalhar em outras áreas

  1. Oi Aline , tudo bem ? Ultimamente tenho pensado muito nessa primeira captação de trabalho , seu post como sempre, muito esclarecedor . Será que consigo já entrar no grupo de brasileiros no face ? Assim já acompanharia as ofertas .

    😘

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