Viagens: Índia – No meio do caminho tinha uma vaca (Varanasi, a cidade sagrada)

Chegamos em Varanasi com a expectativa lá em cima em muitos sentidos. Ouvi dizer que a cidade era imunda, fedia muito, que tinha coco na cidade inteira, que o Ganges é nojento, etc., etc.

Fomos direto para o Hotel (muito bom, por sinal), e no caminho deu para sentir um pouco a cidade. Se achávamos que Deli era o caos, é porque não havíamos conhecido Varanasi. Na estrada, nada de regras de transito. Carros na contramão, aquelas motos com várias pessoas, e mais buzina, claro. E vacas, muitas vacas. Em todos os lugares, rua, estradas, quintais.

Após alguns minutos no Hotel, vimos que tínhamos 2 horas antes do nosso guia chegar então resolvemos sair e tentar ir em um mercado conhecido aqui. Foram 10 minutos muito estressantes. Eu estava com calça jeans, regata, mas um lenço por cima cobrindo tudo. Os homens mexem mesmo, provocam, mandam beijos mesmo eu estando abraçada com meu marido. Todo mundo quer dinheiro, esmola, e te abordam para levar a algum lugar, seguem para você subir na bicicleta. E mais vacas.

As abordagens realmente são muito chatas e insistentes. Desencanamos e voltamos para o Hotel. Passamos em uma loja dentro do hotel para ver sáris, batas e lenços e aparece nosso guia. Sorridente, indiano de Varanasi. Foi explicando um pouco da cidade e do carro entendi mais uma vez um novo conceito da palavra caos. Eu nem consigo explicar o que foi tudo aqui. Muita gente andando para o Ganges, tudo junto e misturado. Buzinas, gritos, conversas, pessoas e mais pessoas e mais vacas. Até uma dentro de uma loja vimos e o guia nos disse que elas são sagradas e podem ir para onde querem e as pessoas não podem fazer nada.

Em um certo ponto do caminho nós descemos do carro e fomos andando. Estar ali andando naquela bagunça desordenada eu pensava em filmes, e se alguma vez na vida eu tinha visto algo igual. Definitivamente não. Acho que a Índia provoca isso em nós.

Varanasi é a cidade do Deus Shiva e sua esposa Parvati. Dizem as escrituras que Shiva estava meditando no Himalaia e Parvati perguntou onde eles iram viver. Ele jogou então seu tridente montanha abaixo e assim nasceu Varanasi. Templos para esses deuses se espalham por toda cidade.

Shiva faz parte da trindade que compõe os deuses hindus: Brahma, o criador, Vishnu, o protetor e Shiva o destruidor. Eles e suas esposas, Sarasvati, Lakshimi e Parvati respectivamente foram a estrela do hinduísmo, de deis pontas. Shiva é o destruidor do mal, do sofrimento, e essa inclusive é a razão da sua cor ser azul, ele tomou o veneno na Terra para proteger os humanos. É o hinduísmo que me encanta tanto…

Enfim, chegamos no Ganges. Mais tumulto, vacas em todos os lugares, barcos. Aquela sensação de estar vivendo isso de novo me atingiu com tudo. Olhando tudo a minha volta, o rio lá, a sujeira, as pessoas, os mantras tocando, Shiva e Parvati.

Subimos no barco e começamos nosso passeio pelo rio rumo as Ghats e as cerimonias de cremação. Todas aquelas pessoas ali, para dar um fim sagrado aos seus amados familiares. Fomos nos aproximando das piras e o guia explicando que as pessoas precisam pagar pelo “fogo sagrado” para começar a cerimônia e pode ser muito caro.

Vimos então chegando os corpos, os familiares carregando. Se estiver coberto com um véu rosa é mulher, se for dourado homem. Eles banham o corpo com agua do Rio ou submergem inteiro, e deixam um tempo secando nas escadas. Depois eles vão para algum lugar orientado pelos cremadores e terminam a cerimônia. O corpo demora em média 2horas e meia para queimar e a família não leva cinzas, nada. Uma vez por semana tudo é lavado e pedaços de corpo que não queimam são jogados no rio.

Ver tudo isso é surreal. Voltamos para o ponto de partida do barco e estava começando a cerimônia religiosa para o rio. Toda cheia de simbolismo: 9 guarda-chuvas representando os planetas, muitos 7 representando os degraus para o nirvana.

O guia explicando que o que os mantras diziam era uma mensagem para todos, não para o Rio. Eles pedem paz, pedem a purificação do ser humano, a união, deixar de lado o “eu” e pensar em “nós”. Me emocionei muito com todo significado. Isso tudo vindo de um país tão pobre e miserável. Tenho uma identificação imensa com a Índia, com o hinduísmo. Assistindo a cerimonia, pude me ver com sári rosa, cabelo longo preto, cantando junto com todos eles. Desejei do fundo do coração entender hindu e agradeci demais a Deus por poder viver tudo isso.

E hoje, aqui em Varanasi eu entendi os encantos da Índia. Com todo esse caos, bagunça, sujeira eu me senti a pessoa mais feliz e realizada do mundo. Me senti assim em poucos momentos da minha vida e percebi que a Índia me conquistou. Foi um feliz e inesquecível reencontro.

A sagrada Índia: celebrando a morte e a vida

De madrugada no dia seguinte fomos acompanhar os rituais no Ganges. Fim de tarde são as cerimônias de cremação, e de manhã os rituais, banhos, meditações. Ainda tudo escuro e o guia nos convida para tomar um chá indiano com ele. Delicioso. Com leite e masala. Seguimos caminho até chegar no Ganges que tem cores diferentes hoje de manhã. Mulheres carecas entrando na água, vacas, claro sempre vacas. Os Hindus acreditam que o Rio é sagrado então tomar banho ou se molhar com suas águas significa se livrar de todos os erros e coisas ruins do passado.

E assim, o dia amanhece. Em nosso barco ficamos observando as cores de Varanasi, os homens santos cobertos de cinzas usando o laranja, a cor do sacrifício, pessoas tomando banho, lavando roupa, meditando as margens do Rio mais sagrado na Índia. Palácios de todas as arquiteturas e tamanhos, templos de todas as regiões. Dizem os hindus que se você quer conhecer a Índia em 7 horas vá para Varanasi. Todas as Índias se estendem ao longo desse rio.

Voltamos para o local onde as cerimonias de cremação ocorrem e descemos do barco. Caminhamos pelas ruas de Varanasi, observando as pessoas, respeitando as orações. Demais. Entramos na frente do Templo Dourado o qual somente os hindus podem entrar.

De lá nosso guia muito querido nos levou até a universidade hindu para conhecermos o Templo o qual não hindus podem entrar. Reverências, gravuras, imagens, quase enlouqueci descobrindo mais e mais essa religião, esse way of life, que sempre amei.

De lá seguimos para Sarnath, o lugar onde Buda, a nona encarnação de Vishnu deu seu primeiro sermão. E ao entrar no templo a surpresa que tivemos: ali é também o túmulo de Buda. Muito emocionante.

Dia seguinte tivemos nossos últimos momentos nessa cidade maluca. Mais alguns templos, uma experiência incrível em um templo de Hanuman, o deus macaco. Junto com os Hindus, participamos de toda cerimônia entoando mantras e esperando abrir as cortinas com as imagens para reverenciar esse deus tão popular na Índia.

E um fim de tarde as margens do Gangues, conversando com o guia, comprando livros sobre Hinduísmo e curtindo estar aqui.

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