Lindando com a quarentena em casa na Austrália

Nós decidimos nos isolar, para proteger nosso filho mais novo e para proteger a camada mais frágil da população, e honestamente, vejo essa quarentena como nosso papel em uma sociedade que esta em pandemia.

Somos quatro pessoas em casa, dois adultos e duas crianças e um cachorro. Me sinto muito abençoada de morarmos em casa, nossa casa que construimos com muito amor e tanto adoramos passar tempo nela.

Eu tenho meus negócios, meu marido esta trabalhando de casa, minha filha não esta indo na escola. Como meu filho tem problemas respiratórios, quase não saimos de casa, mas eu recebo muita gente aqui.

Minha loja de livros em português é aqui em casa e vira e mexe faço reuniões da doTERRA para apresentar e falar sobre os óleos essenciais. Fora minhas amigas que vejo com frequência e as atividades dos meus filhos, receber os amigos, ir nos playgroups, etc. E dessa interação social eu sinto muita falta.

Fora isso, nossa vida não mega mudou. Estou curtindo esse tempo sem a loucura do dia a dia, a correria, estamos curtindo um dia de cada vez. Assim que a quarentena começou, eu estava ansiosa, e me cobrando demais.

Nossa primeira semana, eu fiquei acordada até mais tarde, planejando os brinquedos que colocaria na casa para estimular o aprendizado da minha filha, fiz atividades, e foi o maior stress. Me senti sufocada e sobrecarregada.

Resolvi então respirar e deixar as coisas acontecerem com calma. Começamos a aproveitar os dias juntos e foquei no ambiente e nos brinquedos que estão para fora. Como nos inspiramos em Reggio e Montessori em casa, o apredizado é de forma holística e lúdica. Foco no ambiente e no interesse das crianças, com poucos brinquedos disponíveis e eles estão sempre de boa.

Quando começam a causar, só mudar os brinquedos ou tirar alguns que eles voltam a brincar. Menos é sempre mais. Falamos sobre letras, números e ciências usando a prática do dia a dia.

E começamos a nos acostumar com nosso novo normal.

A sensação que tenho é que vivemos no medo. Medo de encontrar as pessoas, de cruzar na rua e isso que consigo ver nos olhos de todo mundo: medo. Uma volta no quarteirão ou uma ida a um parquinho que era algo divertido, virou um stress. Falo o tempo todo para as crianças não tocar em nada, e se tem alguém na rua já vem o receio, atravessa a rua.

Junto com o medo tem muita gentileza também. Começou uma campanha aqui na Austrália chamada Raibow Trail – Caminho do Arco-iris. Como estamos todos em casa, as pessoas começaram a desenhar e pintar arco-iris em suas janelas, portões, calçadas para mostrar que estamos juntos. Lindo.

Como as crianças estão todas em casa, e aqui na Austrália é incentivado caminhar pelo bairro mantendo a distância de outras pessoas, muitas familias inventaram uma brincadeira inspirado em um dos livros infantis mais populares, “We are going on a bear hunt”. Colocam ursos de pelúcia em janelas para as crianças acharem. Meus filhos adoram, e é mais uma forma de falamos para nossos vizinhos que estamos juntos.

Como muita gente perdeu emprego, tem um movimento lindo para incentivar os negócios locais. E um grupo de brasileiros criou um outro grupo para ajudar quem esta passando necessidade, organizando doação de coisas, comidas. Toda sexta-feira as 7pm, vamos as nossas portas e aplaudimos os profissionais de saúde como no mundo todo.

Ontem estávamos caminhando na rua e meus vizinhos estavam sentados em suas calçadas fazendo happy hour. Foi demais, conhecemos vizinhos que não tinhamos conhecido antes.

Talvez, já que temos a oportunidade de desacelerar, vamos ver a vida com outro olhos. Valorizar o que realmente importa e aproveitar o tempo, que sempre reclamamos de não termos.

Aqui na Austrália até dia 6 de abril, tivemos 39 mortes e 5,788 casos. Eu moro em WA, Perth e aqui as fronteiras estaduais estão fechadas, podemos sair para coisas essenciais, temos que manter distância das pessoas. Mercado esta de boa, e as escolas estão abertas para quem não tem opção de onde deixar as crianças.

O governo diz que devemos ficar com medidas extremas por mais uns meses. Seis, talvez. Se tem uma coisa que a Austrália é, é humana. Senti muito isso com meu filho no hospital e durante todo seu tratamento e hoje mais que nunca.

Um exemplo foi o pronunciamento do governador do meu Estado sobre o coelho da Páscoa. Cheio de humor e sensibilidade.

As vezes eu acordo pensando que nossa vida voltou ao normal. No final das contas temos que nos reinventar e pegar leve. Estamos vivendo uma situação extrema e única no mundo. Temos que deixar de ver nossas casas como prisão e vê-las como santuário. Nossas casa nos mantêm salvos, protegidos.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s