Austrália: Choque cultural Parte 2

Pois bem, continuando o post anterior sobre Choque Cultural

Mesmo achando super errado e indo contra o que aprendi a vida inteira, fui levando. Com stress, é claro. Vira e mexe eu me irritava com algo, ia para casa sem expectativa e desanimada.

Até que contrataram a hoje, líder da minha sala. Uma fofa, uma pessoa muito bacana, com bastante experiência. Em poucos meses, ela conquistou minha chefe que frequentemente a elogiava e dizia que ela era ótima. Alguns meses depois ela foi promovida. E mesmo sendo uma pessoa muito legal, ela fazia o que se pedia dela. Nada de toda aquela dedicação e suor que eu sempre dei. Ela é gentil, quando muito faz seu trabalho, é relaxada e não busca mil novidades, mas tenta fazer bem o que lhe cabe. Ela incentiva as outras pessoas a fazerem o trabalho delas e só, não ir “além”. Não faz projetos adicionais e raramente faz algo diferente com as crianças. Enquanto eu tenho projetos, escrevo mil observações, ela faz pouco mas faz coisas que saltam aos olhos. E é adorada. Então parei para refletir o que eu estava fazendo de errado.

Veja bem, não me acho melhor que ninguém, nem que ela. Passei a observar porque a funcionária do mês não era a que trabalhava e se dedicava mais, mas uma que fazia o seu trabalho. Claro, então, que a errada sou eu.

Nesse meio tempo, minha filha nasceu. Sai de licença maternidade e voltei a trabalhar meio período. E para quem tem filhos, sabe que filho muda absolutamente tudo. Por mais que eu quisesse me dedicar mais ao trabalho, eu não tinha mais tempo. Chego em casa e começa a rotina da noite: jantar, arrumar o que da tempo, banho e cama. Quando ela dorme, eu estou quebrada. Nos meus dias de folga, ou estou estudando ou passando tempo com minha pequena. Então o que aconteceu foi que eu mudei no trabalho também. Quando estou no trabalho, estou 100% lá, mas deu meu horário, eu vou embora, assim como fazem os australianos.

Todos os dias de manhã eu entro no trabalho pensando que vou me doar 100% para minhas crianças e vou respeitar minhas limitações. Amo sustentabilidade e artes então é ai que vou me esforçar. Pesquiso enquanto estou lá, leio e estudo quando as crianças estão dormindo e só faço curso nos dias e horários que eu trabalho. Nao levo mais nada para casa.

E ai chegou o dia da revisão de performance. Eu estava com expectativa bem baixa, exatamente porque, na minha opinião, nunca trabalhei tão pouco desde que entrei na área há quase 4 anos e porque voltei de licença há 6 meses.

Sentei com minha chefe e a coordenadora e para minha total surpresa, mesmo sem nunca ter trabalhado tão pouco, tive minha melhor revisão. Começou assim: “estamos muito felizes com seu trabalho, Aline. Você teve um semestre muito bom”.  Coisas que sempre achei que fossem qualidades, como por exemplo, falar sobre a nossa filosofia, mandar textos para os funcionários, e ajudar a escola a exercer mais, não eram assim tão bem vistos. Ficou muito claro na fala da minha chefe “você não fica mais falando sobre a filosofia para todo mundo”. Ou o ficar até mais tarde: “você não fica até mais tarde, fica aqui durante seu turno e vai embora”, falado como um elogio, não um demérito como seria feito no Brasil.

Minha cabeça começou a rodar… Finalmente eu descobri qual é o tipo de funcionário que meu trabalho (e vários outros daqui) espera de mim. O funcionário eficiente, que faz o trabalho no seu horário de trabalho, cuida da sua sala, é dedicado mas dentro da sua descrição de cargo, é pontual, se relaciona bem com as outras pessoas, não se envolve em problemas e responde todos os emails que minha chefe manda (eu respondo a maioria, mas ela manda uns com coisas mais administrativas que não tem nenhuma pergunta. Ela quer que responda um “ok, obrigada”).

Sai da reunião confusa. E comecei a refletir desde que eu cheguei, todos os empregos que trabalhei, em conversas com os outros amigos, os pais que trabalham em áreas diferentes, experiência profissional do meu marido. Australiano, em geral, gosta de funcionário que é produtivo. Ficar até mais tarde com frequência pode significar que você não dá conta do seu trabalho, e pode até gerar desconforto com os colegas. Aqui se valorizam pessoas dedicadas, mas não invasivas, que não ficam querendo fazer o trabalho dos outros. Eu sempre achei os australianos meio preguiçosos, mas na verdade eles são, digamos assim, a ‘lei do mínimo esforço’. Fazem o que é esperado deles e as vezes (bem as vezes) algo a mais. E daí na hora do ‘a mais’, todo mundo se surpreende e agradece, diferente daquele que dá o sangue todos os dias. Se você faz o ‘a mais’ sempre, o dia que ele não faz, é criticado.

Vale ressaltar que mandar um funcionário embora aqui é MUITO difícil. Talvez por essa razão é que as pessoas sejam assim. Eu sei que para mim foi um choque e libertador ao mesmo tempo. Ainda estou digerindo aquela reunião, mas já sei que eu posso ser muito mais leve e tranquila no trabalho que serei respeitada e reconhecida. E diferente do Brasil, não serei mandada embora por fazer simplesmente o que esperam de mim.

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2 comentários sobre “Austrália: Choque cultural Parte 2

  1. Oi Aline!
    Estou pra comentar desde o outro texto, mas vou fazer tudo nesse aqui hehe
    Trabalhei pra um restaurante cujo dono é indiano e a gerente geral é filipina, e sempre fui muito reconhecida pelo meu hardworking. Considerando que há muitos cidadãos e residentes permanentes na Austrália que vêm de outros países e culturas, acho que selpre vale a pena analisar a pessoa pra quem você trabalha, pois pra algumas nacionalidades esse ” a mais” faz muita diferença! 🙂
    Sobre você dizer que ao contrário do que aconteceria no Brasil você não será dispensada por fazer apenas o que esperam de você : desculpe, mas eu nunca vi alguém ser mandado embora no Brasil por fazer bem simplesmente aquilo que lhe cabe. Claro que essa é a minha experiência, pode ser que você já tenha visto isso acontecer, mas é exceção ( eu acho). O que já vi foi a pessoa querer fazer mais do que lhe compete e não fazer bem nem o que lhe cabe nem o ” a mais”. Não acho justo generalizar dessa forma, temos gestores coerentes no Brasil também. 🙂
    Sobre ir embora no horário e olharem torto: no meu último escritório trabalhava das 7h às 16:30, e ia mesmo embora esse horário por vários motivos ( apesar de não ter filhos). Quem ficava de falação eram colegas, cheguei no sócio pra confirmar se tinha algum problema e a resposta foi não. Acho que a vida fica mais fácil quando paramos de nos preocupar com a opinião alheia ( alguém falando do horário que você saiu do trabalho, alguém falando que sua casa não está imaculadamente limpa)!
    Em um outro escritório que trabalhei o sistema anual de avaliações era dividido em ” melhorias necessárias “, “atende às expectativas” e ” excede as expectativas “. Sempre foi ressaltado que ficar no atende ( fazer o que lhe compete) não era uma coisa negativa, e sim o esperado. O ” excede” era uma coisa muito excepcional.
    Só estou deixando esse comentário porque não acho que no Brasil as coisas sejam tão horrorosas assim, a gente que liga demais pra opinião alheia! 🙂
    Entendo que chefe seja chefe em qualquer lugar, e salvo exceções, vão ficar felizes em receber o trabalho entregue de forma bem feita e no prazo, sem muitos “plus”!

    Desculpe o comentário gigante hehe!
    Bjs e boa semana!

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    1. Ola Juliana,

      Muito obrigada pelo comentário e por acompanhar o blog. Claro que meu blog, minhas experiências. E fica bem claro que tivemos experiências muito diferentes profissionais, tanto aqui, quanto no Brasil.

      Minha chefe é Australiana. Isso muda muito. Se seu chefe não é aussie, mas é de um país em desenvolvimento (PR ou não), a visão dele será bem diferente. No post e nas pesquisas que fiz, lidar com chefe australiano é por aí. qualquer colega que não é aussie, por exemplo, uma querida amiga ucraniana, trabalha muito e muito. Mas os aussies, chegam, fazem seu trabalho e vão embora.

      Que ótimo para você que teve experiências tão positivas no Brasil. Nenhum trabalho que tive, inclusive como estagiária, saia no horário e não era criticada. Nenhum. E isso se vão quase 10 anos de profissão. Na minha visão, o mercado de trabalho do Brasil é acelerado, competitivo para caramba e desgastante. Tive um chefe maravilhoso mas não menos exigente. No meu círculo pessoal de amigos, família, conhecidos, colegas, as únicas pessoas que saiam no horário e não sofriam repressão era quem trabalhava em fábrica ou no escritório que tinha a fábrica no mesmo site. Só. Eu passei por situação de ser produtiva, fazer hora de almoço curta para finalizar tudo e ser chamada atenção porque estava indo embora as 6pm e meu par de equipe ficar até as 9pm. Mas meu chefe não via que ele fazia 2 horas de almoço e ficava papeando no café. O problema era eu, não ele. E posso citar diversos exemplos parecidos, inclusive em revisão de performance em não ter um bônus tão alto porque eu fazia somente o esperado. (“Aline, esta tudo bem com você? Você tem feito somente o seu trabalho, não parece estar se esforçando. Esta desmotivada?” – true story)

      Não é nem de perto se preocupar com o que os outros pensam, é fazer parte de um sistema que eu nunca pertenci. Eu nunca pertenci. Nunca achei normal aquela loucura. Fico feliz por você que teve experiências boas para recordar e motivação para talvez voltar :-).

      E não acho que chefe seja chefe em qualquer lugar, pois me demorou quase 5 anos, alguns reviews para tirar o peso e a insegurança de ter que dar o sangue para ser reconhecido. Hoje levo uma vida muito mais leve fazendo o que é esperado de mim :-).

      Obrigada e pode deixar quantos comentários gigantes você quiser.
      Beijos

      Curtir

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