Australia: Choque cultural Parte 1

Quando se viaja para um país diferente, sabemos que muitas dificuldades estarão no caminho. Somos educados de uma forma no Brasil, com valores totalmente diferentes de outros países. Talvez o primeiro choque cultural que brasileiros sofrem é em relação a limpeza.

A mão de obra na Austrália é muito cara. Ter faxineira é um luxo. Por um lado isso é muito bom, pois faz a desigualdade social não ser tão imensa, mas por um outro lado, faz a galera trabalhar. Quem faz a limpeza e manutenção da casa somos nós. Sendo assim, os australianos não são alucinados por limpeza como nós brasileiros somos. Não espere ir a casa de um Aussie e encontrar aquele cheiro de pinho sol e tudo brilhando, pois irá se chocar. De uma forma é estranho, mas de outra, libertador. Nada de correr limpar a casa para receber visita em casa. Como quem é responsável pela limpeza são os moradores da casa, e considerando que todos trabalham durante a semana, tem filhos e querem fazer esportes e curtir a vida ao ar livre, a limpeza vai lá para baixo na lista de prioridades. Não que as casas sejam imundas, mas ninguém gasta todo sábado de manhã para fazer faxina, jogando balde de água no banheiro e esfregando.

Porém, o foco desse post não é limpeza. Gostaria de dividir o maior choque cultural que já vivi até hoje nos meus quase 5 anos de Austrália: o campo profissional. Estou no mesmo trabalho desde 2013 e sempre trabalhei muito. Desde de ter trabalhado num café no meu primeiro ano, na verdade. No Brasil, somos educados e crescemos acreditando que se não trabalharmos muito e fizermos mais do que nos pedem, seremos substituídos. Pessoas devagares ou preguiçosas são mandadas embora. Então, vim para cá com essa cabeça.

Pois bem, já lá no café me estressei sem necessidade. Era garçonete. E resolvi, por conta propria, ficar responsável por verificar o estoque e controlar para não faltar nada, no sentido de querer “ajudar”. Cheguei a fazer planilhas de controle e ficar até mais tarde contando quantos pratos e talheres tinham. Até que um dia o gerente me falou “para de fazer isso e vai servir os clientes. Você é só uma garçonete”. E por mais duro que possa ter sido, ele estava certo.

Mudei de emprego e de área, mas a cabeça continuava igual. Fiz parte da equipe que estava la quando abriram o centro (child care) onde eu trabalho hoje logo após a construção, então tinha MUITA coisa para fazer. No primeiro dia de trabalho (ainda antes de recebermos os primeiros alunos), o quarto onde ficariam os bebês nem piso tinha. Montamos todos os móveis da Ikea, colocamos carpete, montamos berço, mas ainda tinha muito o que fazer. Sempre senti que meu trabalho era parte da minha casa e que eu sou parte do negócio. Como tinha muita coisa para fazer, eu ia aos finais de semana arrumar as coisas, comprar móveis, ficava até mais tarde, se precisasse.

De casa, fazia toda documentação necessária, organizava tudo. E aí, com o tempo, fui vendo que não era tão valorizada assim pelo trabalho que estava desenvolvendo. Eu não entendia bem porquê. Óbvio que minha chefe adorava o fato de eu dar o sangue pela escola e me dedicar muito. Ela sempre falou isso. Mas de alguma forma eu sentia que não era valorizada da forma que ela dizia. Uma coisa que sempre ouvi foi que ela adorava a minha paixão pela escola. E esse é mesmo um ponto importante, pois eu sou uma pessoa movida por paixão. Se não acredito na causa, não luto por ela.

A cada seis meses temos a revisão de performance. Nunca tive más revisões, sempre a mesma coisa “você se dedica muito, é apaixonada pelo trabalho, está sempre buscando novos cursos e formas de melhorar o seu trabalho, se relaciona bem com staff e com as famílias, as crianças te adoram”. Sempre achei muito bom e fiquei feliz em estar demonstrando o que sinto em relação ao trabalho. Eram sempre afirmações positivas que pareciam vim de uma cartilha, sem empolgação. Elogio é elogio, não? 

Com o passar dos anos, comecei a observar um pouco mais as outras meninas. Acredito que pelo fato da educação que tive no Brasil, tendo um pai empresário e pelos anos no mundo corporativo no qual você tem que trabalhar muito para ser reconhecido, na minha cabeça é normal trabalhar mais do que é esperado de você. Não aqui. Comecei a perceber que as meninas iam embora sempre na hora, mesmo que na porta um pai precisasse conversar com elas sobre o filho. Enquanto eu ficava ate mais tarde, voltava para sala com o pai ou mãe, mostrava a rotina, etc., as outras meninas pediam, gentilmente, se o pai poderia conversar com uma outra educadora pois o turno delas tinha acabado. E iam embora.

Outra coisa: elas fazem o trabalho que é esperado de você e pronto. Deu horário, se limpou, limpou; se arrumou, arrumou; se não deu, paciência, vai embora. Imaginem o sangue brasileiro de limpeza quase surtando em ver as coisas sujas porque a pessoa foi embora no horário e não ficou 5 minutos a mais. Outra coisa que está no gene é a questão de estudar, renovar e manter o CV atualizado. Não aqui. Você tendo a qualificação necessária, pode nunca mais estudar que ninguém vai te cobrar MBA, outro idioma, etc.

Quantos e quantos cursos eu não fiz aqui na minha área…. sempre renovando, focando na filosofia de ensino que temos no centro, trazendo textos para os outros funcionários, educando em sustentabilidade e em Reggio. Posters, cursos, palestras. Fui fazendo o que tinha sido educada a vida toda para fazer: trabalhar muito, se dedicar, dar o sangue, mostrar serviço. Pensava sempre “como posso estar fazendo ‘tudo certo’ e mesmo assim não ser a funcionária do mês”? Se tem algo que a vida me ensinou foi “você quer que algo mude. Mude você”. Fácil falar, difícil fazer. 

(continua em outro post).

 

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